Segue-se a escolha dos materiais, etapa essencial e profundamente ética. Optar por materiais reciclados ou reutilizados não é apenas uma decisão prática, mas um posicionamento estético e simbólico. A madeira, geralmente de castanho, dá corpo ao modelo tridimensional, oferecendo solidez, calor e uma ligação ancestral à terra. Sobre essa estrutura, pequenas peças de barro são acrescentadas com critério, sugerindo utensílios, animais ou elementos arquitetónicos que reforçam a verossimilhança da cena.
O couro e o tecido entram como matérias de suavidade e contraste, dialogando com a rudeza da madeira. Pequenos ramos secos, cuidadosamente escolhidos, evocam a paisagem e o tempo, trazendo para o presépio a marca do mundo natural. Nada é arbitrário... cada elemento deve respeitar a escala, a harmonia e o ritmo visual do conjunto.
As personagens surgem então como o coração da obra. Modeladas e vestidas com fragmentos de tecido e fio encerado, ganham identidade e expressão sem excessos, numa contenção que considero essencial. Pequenos sinos e, por vezes, delicadas campânulas de vidro introduzem luz, som e proteção, quase impercetíveis, mas suficientes para sugerir mistério e celebração.
Por fim, o verniz sela o trabalho. Não apenas protege, mas unifica, conferindo ao presépio uma pele comum, onde todas as matérias se reconhecem como parte de um mesmo corpo. O resultado é mais do que um objeto... é o testemunho de um processo criativo consciente, lento e profundamente humano, onde técnica e poesia caminham lado a lado.